Crise epiléptica: o que acontece no corpo e no coração
Postado em: 21/08/2026

Durante uma crise epiléptica, as alterações mais visíveis costumam ocorrer no corpo, mas o coração também pode responder à atividade elétrica anormal do cérebro. Isso acontece porque o sistema nervoso autônomo, responsável por funções como frequência cardíaca, pressão arterial e respiração, pode sofrer alterações durante o episódio.
Essas respostas geralmente são temporárias, mas ajudam a compreender a relação entre epilepsia e coração. Em algumas situações, principalmente quando as crises são frequentes ou não estão controladas, essa interação merece atenção.
Neste artigo, entenda como uma crise epiléptica pode alterar os batimentos cardíacos e a pressão arterial, o que significa “coração epiléptico” e quando essas alterações precisam ser investigadas.
O que acontece com o coração durante uma crise epiléptica
Durante uma crise epiléptica, o cérebro pode influenciar temporariamente o funcionamento do coração. Isso ocorre porque o sistema nervoso autônomo, responsável por controlar funções automáticas como batimentos cardíacos, pressão arterial e respiração, pode ser afetado pela atividade elétrica anormal.
Uma das respostas mais comuns é a liberação de catecolaminas, como a adrenalina, que pode acelerar o coração e elevar a pressão arterial. Em alguns casos, essa resposta autonômica pode ser mais intensa, mas isso não significa que toda crise provoque alterações cardiovasculares importantes.
As principais alterações observadas são:
- Aceleração dos batimentos (taquicardia): é a alteração cardíaca mais frequente e pode ocorrer durante a crise ou até mesmo antes dos sinais mais evidentes;
- Alteração da pressão arterial: a pressão pode aumentar durante o episódio e apresentar mudanças também no período após a crise;
- Redução dos batimentos (bradicardia): é menos comum, mas pode ocorrer em alguns tipos de crise;
- Pausa temporária dos batimentos (assistolia ictal): em situações raras, pode ocorrer uma pausa temporária da atividade cardíaca, geralmente precedida por bradicardia;
- Alterações na respiração e na oxigenação: principalmente nas crises tônico-clônicas generalizadas, podem ocorrer alterações respiratórias e queda da oxigenação, o que pode repercutir sobre o sistema cardiovascular.
Assim, a resposta cardiovascular varia conforme o tipo de crise, as regiões cerebrais envolvidas e as características de cada pessoa. Nem todos os pacientes apresentam as mesmas alterações, e sua presença deve ser interpretada no contexto clínico.
O que é o “coração epiléptico”?
O termo “coração epiléptico” foi proposto para descrever possíveis alterações cardiovasculares associadas à epilepsia crônica. A hipótese é que crises recorrentes, especialmente quando acompanhadas de alterações na oxigenação e liberação intensa de catecolaminas, possam contribuir, ao longo do tempo, para mudanças no funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos.
O conceito não sugere que uma única crise cause, por si só, uma lesão cardíaca permanente. A hipótese está relacionada à exposição repetida ao longo dos anos e aos possíveis efeitos acumulados sobre o sistema cardiovascular.
Entre os achados estudados estão:
- Alterações na variabilidade da frequência cardíaca;
- Mudanças na função cardíaca, incluindo a função diastólica;
- Alterações vasculares, incluindo achados relacionados à aterosclerose em estudos observacionais.
Mais recentemente, o conceito de “síndrome epilepsia–coração” ampliou essa discussão ao considerar a interação entre os sistemas nervoso e cardiovascular em diferentes direções.
Isso não significa que todas as pessoas com epilepsia desenvolverão alterações cardíacas. O “coração epiléptico” ainda é um conceito em investigação, que busca compreender melhor essa relação e seus possíveis impactos no acompanhamento de pessoas com epilepsia.
Quem precisa de atenção redobrada — e quando procurar avaliação
A relação entre epilepsia e saúde cardiovascular merece um olhar atento em algumas situações. Entre os fatores que podem justificar uma avaliação individualizada estão:
- Crises tônico-clônicas generalizadas que permanecem sem controle;
- Epilepsia de longa duração;
- Fatores de risco cardiovascular, como hipertensão, colesterol elevado, diabetes e tabagismo;
- Idade mais avançada;
- Sintomas que possam sugerir alterações cardíacas.
Essas características não significam que a pessoa tenha uma doença cardíaca ou o chamado “coração epiléptico”. Elas apenas indicam situações em que o acompanhamento pode precisar considerar também a saúde cardiovascular.
Também é importante conversar com o neurologista diante de mudanças como:
- Crises que retornaram após um período de controle;
- Aumento da frequência ou alteração no padrão dos episódios;
- Palpitações fora das crises;
- Desmaios ou perda de consciência sem explicação clara;
- Dor no peito;
- Cansaço desproporcional ao esforço habitual.
Conforme a história clínica e os sintomas apresentados, o médico pode solicitar exames como eletrocardiograma, monitorização do ritmo cardíaco, exames laboratoriais ou avaliação cardiológica. A necessidade de investigação complementar é definida individualmente.
Os remédios para epilepsia afetam o coração?
Alguns medicamentos anticrise podem apresentar efeitos para a saúde cardiovascular. Os indutores enzimáticos, por exemplo, podem alterar o perfil lipídico, enquanto alguns medicamentos que atuam sobre canais de sódio podem interferir na condução elétrica do coração e, em situações específicas, favorecer alterações do ritmo cardíaco.
Por isso, a escolha do tratamento considera não apenas o controle das crises, mas também o histórico clínico, os fatores de risco e as demais condições de saúde de cada pessoa.
Isso não significa que a medicação deva ser interrompida ou trocada por conta própria. A suspensão inadequada de um medicamento anticrise pode aumentar o risco de novas crises e trazer consequências importantes. Qualquer ajuste de dose, substituição ou interrupção deve ser discutido com o médico responsável pelo acompanhamento.
O que o tratamento regular faz pelo coração
Manter a epilepsia sob controle faz parte de um cuidado que vai além do cérebro. Reduzir a ocorrência de crises diminui a exposição repetida do organismo às alterações do sistema nervoso autônomo e, em determinados episódios, à redução da oxigenação.
No dia a dia, algumas atitudes contribuem para um acompanhamento mais seguro e organizado:
- Manter o tratamento prescrito sem falhas ou interrupções por conta própria;
- Comparecer às consultas de reavaliação, mesmo quando não houver novas crises;
- Informar ao neurologista qualquer episódio novo ou mudança nas características das crises;
- Registrar palpitações, tonturas, desmaios ou outros sintomas que ocorram fora dos episódios;
- Cuidar da qualidade do sono, pois a privação de sono pode favorecer crises em algumas pessoas;
- Acompanhar e tratar fatores de risco cardiovascular, como hipertensão, colesterol elevado e diabetes;
- Realizar os exames indicados para cada caso, que podem incluir EEG e, quando houver indicação, avaliação cardiológica.

Perguntas frequentes sobre epilepsia e coração
A epilepsia afeta o coração?
Pode afetar. Durante uma crise, a atividade cerebral anormal pode repercutir no sistema nervoso autônomo e alterar os batimentos e a pressão arterial. Na epilepsia crônica, os efeitos repetidos dessas alterações são estudados como possíveis fatores de impacto cardiovascular.
Toda crise acelera o coração?
A aceleração dos batimentos é a alteração cardíaca mais comum, mas não ocorre em todas as crises. Algumas podem provocar redução da frequência cardíaca e, raramente, pausas temporárias nos batimentos. A resposta varia conforme o tipo de crise e as áreas cerebrais envolvidas.
Quem tem epilepsia precisa fazer exames do coração?
Não necessariamente. A avaliação cardiovascular é definida caso a caso, levando em consideração o controle das crises, os sintomas, o histórico clínico e a presença de fatores de risco. Conforme a situação, podem ser indicados eletrocardiograma, monitorização do ritmo cardíaco ou avaliação com cardiologista.
Os remédios para epilepsia fazem mal ao coração?
Alguns medicamentos anticrise podem influenciar o perfil lipídico ou a condução elétrica cardíaca, e esses possíveis efeitos são considerados na escolha do tratamento. Isso não significa que a medicação deva ser suspensa. Qualquer mudança precisa ser discutida com o médico, pois a interrupção sem orientação pode aumentar o risco de novas crises.
Controlar as crises reduz o risco cardiovascular?
O controle das crises reduz a exposição repetida do organismo às alterações autonômicas e à baixa oxigenação que podem ocorrer em determinados episódios. Por isso, manter o tratamento regular da epilepsia é parte importante de um cuidado que considera também a saúde cardiovascular, embora isso não signifique que o tratamento elimine o risco cardiovascular.
Cuide da epilepsia de forma individualizada
O acompanhamento da epilepsia deve considerar não apenas as crises, mas também os sintomas, fatores de risco e possíveis alterações cardiovasculares.
Se as crises aumentaram, mudaram de padrão ou vieram acompanhadas de palpitações, desmaios, dor no peito ou outros sintomas, converse com seu neurologista. Quando necessário, exames complementares podem ajudar na avaliação.
A Dra. Camila Hobi, neurologista especialista em epilepsia e eletroencefalograma, atende em São Paulo, com avaliação cuidadosa, comunicação clara e acompanhamento individualizado.
